A nova pesquisa Quaest sobre a corrida presidencial mostra um cenário de mudanças importantes no campo da direita e uma redução da vantagem de Lula sobre Flávio Bolsonaro em uma eventual disputa de segundo turno. Os números foram analisados pelo jornalista e comentarista Reinaldo Azevedo, durante o programa O É da Coisa, da Rádio Bandeirantes de São Paulo.
No primeiro turno, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva aparece na liderança, com 37% das intenções de voto, seguido pelo senador Flávio Bolsonaro, com 29%. Augusto Curi surge em terceiro, com 10%, enquanto Renan Santos registra 3%. Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Samara Martins aparecem com 1% cada. Outros 11% se declararam indecisos, enquanto 7% afirmaram que votariam em branco, nulo ou não votariam.
A comparação com a pesquisa anterior, divulgada em 14 de agosto, evidencia principalmente o crescimento de Curi. O candidato passou de 2% para 10%, uma alta de oito pontos percentuais. No mesmo período, Lula oscilou de 38% para 37%, enquanto Flávio Bolsonaro caiu de 31% para 29%. Renan Santos e Romeu Zema oscilaram um ponto para baixo, e Caiado recuou três pontos.
Para Reinaldo Azevedo, o desempenho de Curi representa uma mudança relevante na disputa pelo eleitorado de direita. O comentarista avaliou que, embora considere a candidatura um fenômeno construído fortemente nas redes sociais, o candidato conseguiu transformar essa presença digital em intenção de voto.
“É claro que o Curi é um produto artificial criado em rede”, afirmou Azevedo, antes de reconhecer: “É claro que é artificial, mas colou.”
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Na avaliação do jornalista, o resultado deve servir de alerta principalmente para os candidatos que tentam ocupar o espaço político associado ao bolsonarismo sem contar com o apoio direto do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Ao comentar especificamente os desempenhos de Ronaldo Caiado e Romeu Zema, Azevedo afirmou que ambos teriam adotado uma estratégia de aproximação com o bolsonarismo sem Bolsonaro. Para ele, essa estratégia não conseguiu conquistar de forma significativa o eleitor identificado com o ex-presidente.
“Vocês decidiram ser bolsonarista sem Bolsonaro”, disse o comentarista, ao analisar o desempenho de Caiado e Zema.
A crítica foi ainda mais direta em relação a Caiado, que aparece com apenas 1% na pesquisa. Azevedo avaliou que o governador de Goiás poderia ter adotado uma postura menos agressiva e mais moderada durante a construção de sua candidatura presidencial.
“Caiado tem uma lição a aprender aí agora que ele já tá com 1%, pelo menos na Quest”, afirmou. Em seguida, acrescentou que, caso tivesse feito “um discurso um pouco mais manso”, poderia estar apresentando um desempenho melhor.
Lula e Flávio se aproximam no segundo turno
O dado que mais chama atenção na pesquisa, porém, aparece nas simulações de segundo turno. Lula e Flávio Bolsonaro aparecem tecnicamente empatados: 42% para o presidente contra 41% para o senador.
Na pesquisa anterior, Flávio tinha 40% e Lula, 43%. Com isso, a diferença, que chegou a oito pontos percentuais em levantamento anterior, agora caiu para apenas um ponto.
Azevedo destacou justamente essa aproximação como um dos principais movimentos da pesquisa. Segundo ele, Lula perdeu apenas um ponto, enquanto Flávio avançou um ponto, reduzindo significativamente a distância entre os dois.
Nas demais simulações, Lula mantém vantagem mais confortável. Contra Renan Santos, o presidente aparece com 43% contra 36%. Diante de Caiado, Lula registra 42% contra 37%. Contra Zema, o resultado é de 44% a 33%. Já no cenário com Curi, Lula marca 40%, contra 34% do adversário.
Para Azevedo, os números mostram que a disputa ainda está fortemente concentrada nos dois polos tradicionais, mas também revelam espaço para uma terceira candidatura que consiga escapar da lógica mais radical da polarização.
Crescimento de Curi muda disputa na direita
A ascensão de Curi, de 2% para 10% em pouco mais de duas semanas, é o principal elemento novo apresentado pelo levantamento. O resultado sugere que existe um eleitorado disposto a considerar uma alternativa aos nomes já consolidados na direita.
Foi justamente nesse ponto que Reinaldo Azevedo concentrou parte de sua análise. O comentarista afirmou que existe uma percepção de que o eleitor não gostaria da polarização, mas ponderou que a polarização é uma característica frequente das democracias.
Na leitura de Azevedo, Curi conseguiu explorar esse espaço ao apresentar uma alternativa com linguagem política própria e uma comunicação mais moderada do que os candidatos que tentaram se posicionar diretamente no campo bolsonarista.
Renan Santos, por sua vez, aparece com 3% e, segundo o comentarista, constrói uma estratégia de longo prazo para disputar o campo da direita. Azevedo classificou sua comunicação como “hiperpolitizada”, diferenciando-a da estratégia de Curi.
Pesquisa também mede impacto das investigações contra Lula
Outro dado comentado no programa diz respeito à percepção dos eleitores sobre as investigações envolvendo o filho do presidente, conhecido como Lulinha.
Segundo a pesquisa, 40% dos entrevistados avaliam que Lula é “muito prejudicado” pelas investigações. Outros 25% afirmam que o presidente é “um pouco prejudicado”, enquanto 31% consideram que o caso não prejudica Lula.
Reinaldo Azevedo chamou atenção para o fato de que, apesar da percepção de parte significativa do eleitorado de que o episódio prejudica o presidente, esse impacto não aparece de maneira expressiva nos números de intenção de voto de Lula.
A leitura apresentada pelo comentarista é que o levantamento reforça uma característica importante do atual cenário eleitoral: a existência de fatos e notícias potencialmente negativos para um candidato não significa, necessariamente, que eles produzirão uma mudança proporcional nas intenções de voto.
Cenário ainda aberto
A pesquisa Quaest retrata, portanto, uma eleição ainda em formação. Lula permanece na liderança do primeiro turno, mas Flávio Bolsonaro reduziu a diferença em relação ao presidente em um eventual segundo turno. Ao mesmo tempo, Curi aparece como o principal fenômeno novo do levantamento, saltando oito pontos e chegando a 10%.
Para Caiado e Zema, os números representam um sinal de alerta. Ambos permanecem com apenas 1%, enquanto Curi avança justamente em um espaço eleitoral que os dois tentavam disputar.
A análise de Reinaldo Azevedo aponta para uma possível mudança na estratégia do eleitorado de direita: em vez de simplesmente reproduzir o bolsonarismo sem Bolsonaro, uma parcela desse eleitor pode estar procurando um candidato com outra linguagem e outra forma de comunicação.
A próxima etapa da campanha deverá mostrar se o crescimento de Curi é um movimento circunstancial ou se representa a consolidação de uma candidatura capaz de alterar de maneira mais profunda a disputa presidencial.
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Altair Tavares
Editor do Ciberjornal que sucedeu desde fevereiro de 2025 todo o conteúdo do blog www.altairtavares.com.br . Atuante no webjornalismo desde 2000. Repórter, comentarista e analista de política. Perfil nas redes sociais: @altairtavares