Um estudo recente revela um aumento consistente no consumo de alimentos ultraprocessados entre povos e comunidades tradicionais no Brasil, acompanhado de uma redução no consumo de frutas e feijão. A pesquisa, liderada pela nutricionista Greyceanne Dutra Brito e pesquisadores de instituições como UECE, Unifor, USP, Fiocruz-CE e UFMG, analisou dados de 2015 a 2022 do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (SISVAN) do Ministério da Saúde. O trabalho, que será publicado oficialmente em 11/05/2026 na Revista Ciência & Saúde Coletiva, destaca impactos em grupos como quilombolas, ribeirinhos, agroextrativistas, povos de terreiros, ciganos, pescadores artesanais, caiçaras e indígenas não aldeados, majoritariamente em territórios rurais.
Tendências no consumo alimentar
A análise de tendências temporais mostrou aumentos no consumo de ultraprocessados, como hambúrgueres e embutidos, em crianças, adultos e idosos desses grupos. Por outro lado, observou-se reduções em alimentos saudáveis, como feijão e frutas, especialmente entre gestantes. Esses padrões indicam uma transição alimentar que afeta a saúde nutricional dessas populações.
Apesar de alguns declínios em itens não saudáveis, o aumento geral em ultraprocessados preocupa os especialistas. A pesquisa aponta para uma facilitação de acesso a esses produtos, impulsionada por fatores como mobilidade, baixo custo e apelo publicitário.
E, entre os não saudáveis, a gente observou a redução do consumo de alimentos ultraprocessados de 1,18%, de bebidas adoçadas de 3,22% e biscoitos recheados, doces ou guloseimas, de 3,31% ao ano
Greyceanne Dutra Brito
Mas, pelo menos, houve esse aumento
Greyceanne Dutra Brito
Fatores que impulsionam as mudanças
A perda de territórios para cultivo próprio emerge como um dos principais motivos para essa mudança. Com o avanço do comércio, alimentos ultraprocessados chegam mais facilmente a áreas rurais, substituindo opções tradicionais. Aplicativos de delivery e publicidade intensa também contribuem para esse acesso facilitado.
Enfim, todo esse acesso publicitário muito forte pode chegar a esses territórios também
Greyceanne Dutra Brito
Os pesquisadores enfatizam que o baixo custo e a conveniência desses produtos os tornam atrativos, especialmente em contextos de mobilidade limitada. Essa dinâmica reflete desafios mais amplos enfrentados por povos e comunidades tradicionais no Brasil.
Terem o cultivo do próprio alimento seria uma das primeiras coisas a ser trabalhada. Porque, a partir do momento que o alimento ultraprocessado está fazendo parte do cotidiano dessas populações, ele está de certa forma com acesso mais facilitado a esses territórios, majoritariamente rurais. Então, se esse alimento sai da cidade e vai para o campo é porque já existe esse comércio
Greyceanne Dutra Brito
Implicações para a saúde e políticas públicas
Essas tendências podem agravar problemas de saúde, como obesidade e deficiências nutricionais, em populações vulneráveis. O estudo sugere a necessidade de intervenções para promover o cultivo local e reduzir o apelo de ultraprocessados. Políticas que incentivem o consumo de alimentos in natura poderiam mitigar esses efeitos.
A pesquisa, baseada em dados oficiais, oferece uma base sólida para ações futuras. Com a publicação iminente, espera-se que os achados influenciem debates sobre segurança alimentar em territórios tradicionais. Assim, o foco em preservação cultural e territorial se torna essencial para reverter essas tendências.
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