No interior do Acre, o seringueiro Augusto Bezerra da Silva, de 65 anos, conviveu por décadas com as marcas da lobomicose, uma doença endêmica na Amazônia Ocidental. Diagnosticado aos 20 anos, por volta de 1981, ele viu sua vida transformada pelas lesões nodulares na pele, que o levaram ao isolamento social. Agora, graças ao projeto Aptra Lobo, que oferece tratamento gratuito via SUS, Silva relata melhorias significativas nas lesões faciais, destacando a importância de iniciativas para populações ribeirinhas e extrativistas com pouco acesso à saúde.
A lobomicose, causada pela penetração de fungo em lesões na pele, evolui para lesões nodulares e requer tratamentos como itraconazol ajustado, biópsias e cirurgias. O projeto Aptra Lobo, envolvendo o Ministério da Saúde, o Hospital Israelita Albert Einstein e especialistas como João Nobrega de Almeida Júnior, atua nos estados do Acre, Amazonas e Rondônia. Iniciado para suprir a falta de diagnóstico e tratamento eficazes, o programa realiza acompanhamento a cada três meses e capacita profissionais locais.
A jornada de Augusto Bezerra da Silva
Augusto Bezerra da Silva entrou no projeto Aptra Lobo após mais de 20 anos lidando com a doença, que afetava principalmente seu rosto. Ele descreve o impacto emocional, incluindo o estigma social e a dificuldade em responder perguntas sobre as lesões. O tratamento gratuito tem sido fundamental para sua recuperação, permitindo que ele saia do isolamento imposto pela condição.
O problema que eu passei não foi fácil. Você, novinho, você se acha perfeito, sem defeito. Aí depois você tem que se isolar, sem ter como, para melhor dizer, ser liberto. Se colocar isolado com a idade de 20 anos, até perto da idade de 65 não é fácil mesmo.
Augusto Bezerra da Silva
Todos que botam os olhos em cima da gente perguntam o que é, sem você ter uma resposta a dizer. Não é fácil não. Ele pergunta: 'o que é isso?' E a gente sem saber responder. O destino é a vontade de se isolar para ninguém ver a gente.
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Augusto Bezerra da Silva
O impacto do projeto Aptra Lobo
O projeto Aptra Lobo atende pacientes com lobomicose, ou DJL, em áreas remotas da Região Norte do Brasil, onde a doença é prevalente entre povos originários e extrativistas. Profissionais locais captam pacientes, realizam diagnósticos e aplicam tratamentos conforme diretrizes estabelecidas. João Nobrega de Almeida Júnior enfatiza o papel desses agentes na rede de saúde, melhorando o acesso em regiões isoladas.
São eles que captam os pacientes, fazem o diagnóstico e tratamento de acordo com as diretrizes criadas pelo projeto.
João Nobrega de Almeida Júnior
Além do tratamento, o projeto lançou um manual em dezembro de 2025 para auxiliar no diagnóstico e manejo da lobomicose, marcando um avanço para uma doença historicamente negligenciada. Um Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) está previsto para 2026, prometendo padronizar o cuidado em todo o país. Essas iniciativas destacam a necessidade de atenção contínua à saúde em comunidades vulneráveis da Amazônia Ocidental.
O manual é o primeiro documento para auxiliar no diagnóstico e tratamento da doença, sendo um grande marco para uma doença tão antiga e historicamente negligenciada.
João Nobrega de Almeida Júnior
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